Stonehenge: como foi construído e o mistério da pedra vinda da Escócia

Um estudo de 2024 mudou o que se sabia sobre Stonehenge: sua pedra central veio da Escócia, a 750 km de distância. Entenda as fases, os construtores e para que servia.

Por mais de um século, arqueólogos deram como certo que a pedra central de Stonehenge, conhecida como Altar Stone, vinha do País de Gales — como quase todas as outras pedras menores do monumento. Em agosto de 2024, um estudo publicado na revista Nature derrubou essa certeza: a análise da idade e da composição química de minerais dentro de fragmentos da pedra mostrou que ela veio, na verdade, do nordeste da Escócia, a mais de 750 quilômetros de distância — a maior distância já registrada para o transporte de uma única pedra em um monumento neolítico em qualquer lugar do mundo.

O achado não é só uma curiosidade geográfica. Ele reabriu, com força, uma pergunta que os arqueólogos nunca conseguiram responder por completo: como — e por quê — uma sociedade sem rodas, sem metal e sem animais de tração equivalentes aos usados depois na história conseguiu mover blocos de rocha de várias toneladas por centenas de quilômetros, há cerca de 5 mil anos? E, mais do que isso, o que esse esforço coletivo revela sobre o grau de organização, comunicação e cooperação entre comunidades espalhadas por uma ilha inteira, num período muito anterior à escrita, às rodas de carga e a qualquer forma conhecida de governo centralizado.

As pedras não são todas iguais — e vieram de lugares muito diferentes

Um erro comum em resumos superficiais sobre Stonehenge é tratá-lo como um monumento feito de “pedras”, no singular, como se toda a estrutura tivesse a mesma origem. Na verdade, o monumento reúne pelo menos três tipos de pedra, com três histórias geológicas — e três histórias de transporte — completamente distintas.

Os sarsens, os grandes blocos que formam o círculo externo e os trilitos (pares de pedras verticais com uma pedra horizontal por cima, no formato mais reconhecível do monumento), pesam em média 25 toneladas cada, chegando a 30 toneladas na maior delas. Durante décadas, sua origem exata permaneceu incerta, até que um estudo geoquímico publicado em 2020 na revista Science Advances comparou uma amostra retirada de uma das pedras com afloramentos rochosos da região e identificou West Woods, em Wiltshire, a cerca de 25 quilômetros do monumento, como a fonte mais provável — uma distância administrável para o transporte terrestre da época.

As bluestones, pedras menores (entre 2 e 5 toneladas) que formam um arco duplo dentro do círculo de sarsens, contam uma história bem mais complexa. Já em 1923, o geólogo Herbert Henry Thomas identificou sua origem nas colinas de Preseli, no sudoeste do País de Gales — a cerca de 225 a 240 quilômetros de distância. Escavações mais recentes, lideradas por equipes da University College London, localizaram duas pedreiras neolíticas específicas nessas colinas, Carn Goedog e Craig Rhos-y-felin, com evidência de extração deliberada de rocha datada de aproximadamente 3400 a 3000 a.C. — ou seja, do mesmo período em que começou a primeira fase de construção de Stonehenge.

E, por fim, a Altar Stone, um bloco retangular de arenito de 5 metros de comprimento e cerca de 6 toneladas, que fica deitado no centro do monumento. Por mais de um século, geólogos supuseram que ela vinha da mesma região do País de Gales que as bluestones — afinal, ambas ficam fisicamente próximas dentro do arranjo do monumento. Um estudo anterior, de 2023, já havia descartado essa hipótese ao mostrar que a composição da Altar Stone não correspondia às formações rochosas do País de Gales, deixando sua origem real como um mistério em aberto. Foi só o estudo de 2024, ao analisar grãos minerais preservados em fragmentos coletados em escavações anteriores — algumas delas realizadas ainda no século 19 —, que conseguiu apontar uma correspondência precisa: as formações rochosas da Bacia Orcadiana, no nordeste da Escócia, região que inclui parte da península escocesa e as Ilhas Órcades. Os próprios autores do estudo reconhecem que não sabem responder como o transporte foi feito, se por terra, por mar, ou por uma combinação das duas rotas — apenas que, dada a tecnologia disponível no período neolítico, a façanha implica um nível de organização social e de conexão entre comunidades distantes maior do que se supunha até então.

Stonehenge, na Inglaterra

Uma teoria intrigante: um círculo de pedras reciclado do País de Gales

Um detalhe pouco explorado em textos genéricos sobre o tema é a possibilidade de que parte das bluestones de Stonehenge já tenha feito parte de outro monumento — antes mesmo de chegar à Inglaterra.

Escavações em Waun Mawn, nas próprias colinas de Preseli, no País de Gales, encontraram buracos vazios de pedras dispostos em círculo, com diâmetro muito próximo ao da vala original de Stonehenge. Um desses buracos, em particular, tem uma seção transversal pentagonal incomum que corresponde exatamente ao formato de uma das bluestones hoje presentes em Stonehenge. A equipe responsável pela escavação, liderada por pesquisadores do University College London, chegou a essa hipótese comparando o tamanho, o formato e a orientação dos buracos vazios galeses com as pedras remanescentes na Inglaterra — um tipo de trabalho de “encaixe” arqueológico que lembra, guardadas as proporções, a reconstituição de uma cena de crime a partir de vestígios indiretos. Se essa hipótese estiver correta, parte do monumento talvez não tenha sido erguida do zero na Inglaterra, mas transportada — pedra por pedra — de um círculo já existente no País de Gales, junto com a própria comunidade que migrou para o sul por volta de 3000 a.C. Essa possibilidade também ajudaria a explicar por que as bluestones parecem ter sido reorganizadas tantas vezes ao longo da história de Stonehenge: elas podem ter carregado, consigo, um significado simbólico prévio, ligado ao local de origem de parte da comunidade que ergueu o monumento inglês.

Não foi construído de uma vez

Como boa parte dos grandes monumentos antigos, Stonehenge não nasceu pronto. As evidências arqueológicas apontam pelo menos três grandes fases de construção, espalhadas por cerca de 1.500 anos:

  • Por volta de 3000 a.C., foi escavada a primeira estrutura: uma vala e um aterro circulares com cerca de 100 metros de diâmetro, além de um anel de 56 buracos conhecidos como “Aubrey Holes” — batizados em homenagem ao anticuário John Aubrey, que os documentou já no século 17. Restos humanos cremados foram encontrados em muitos desses buracos, sugerindo uma função funerária nessa fase mais antiga.
  • Por volta de 2500 a.C., o monumento ganhou sua configuração mais reconhecível: mais de 80 sarsens foram trazidos de West Woods e erguidos em duas disposições concêntricas — o grande círculo externo e a ferradura interna de trilitos —, com as bluestones organizadas em um arco duplo entre eles.
  • Nos séculos seguintes, até aproximadamente 1500 a.C., as bluestones foram reorganizadas pelo menos duas vezes dentro da estrutura de sarsens, num processo de reformulação contínua que sugere que cada geração reinterpretava e reconstruía parte do que havia herdado, em vez de simplesmente preservar um projeto original imutável.

Uma pergunta que raramente é feita: por que um monumento funerário virou um observatório solar?

Boa parte do interesse popular por Stonehenge se concentra no alinhamento astronômico das pedras — mas a fase mais antiga do monumento, a dos Aubrey Holes, parece ter tido uma função bastante diferente: funerária. Estudos das cremações encontradas nesses buracos sugerem que Stonehenge, em sua primeira versão, funcionava como um cemitério coletivo, reunindo restos humanos cremados ao longo de gerações. Só depois, com a chegada dos sarsens e das bluestones, o local parece ter sido reformulado em torno de um propósito astronômico e cerimonial mais amplo — sem que a função funerária necessariamente desaparecesse por completo. Essa sobreposição de funções ao longo do tempo é um lembrete de que “para que servia Stonehenge” não tem uma resposta única: o significado do monumento provavelmente mudou junto com as próprias comunidades que o utilizaram, ao longo de mais de mil anos de uso contínuo.

Quem eram os construtores

Um estudo de DNA publicado em 2019 na revista Nature Ecology & Evolution, com base na análise genética de 47 esqueletos neolíticos encontrados na Grã-Bretanha, ajudou a responder a uma pergunta relacionada, embora distinta da questão das pedras: de onde vieram as pessoas que ergueram o monumento?

A resposta é surpreendente para quem imagina uma linha direta e isolada de povos “nativos” britânicos: os agricultores neolíticos que chegaram à Grã-Bretanha por volta de 4000 a.C. — e cujos descendentes construiriam Stonehenge alguns séculos depois — descendiam de populações originárias da Anatólia, atual Turquia, que haviam migrado até a Península Ibérica antes de seguir para o norte, ao longo da costa atlântica europeia. A pesquisa mostrou ainda algo notável: ao contrário do que aconteceu em boa parte da Europa continental, praticamente não houve mistura genética entre esses agricultores recém-chegados e a população de caçadores-coletores que já habitava a ilha havia milênios — uma substituição populacional quase completa, e não uma simples fusão gradual entre dois grupos.

Sacerdotes druidas. Foram eles?

Para que servia — e um mito que a própria arqueologia está corrigindo

A explicação mais repetida sobre Stonehenge é que o monumento estaria alinhado ao nascer do sol no solstício de verão — e é justamente esse alinhamento que atrai, todos os anos, milhares de pessoas para assistir ao amanhecer de 21 de junho junto às pedras. O alinhamento é real: o eixo do monumento aponta, de fato, tanto para o nascer do sol no solstício de verão quanto para o pôr do sol no solstício de inverno, já que os dois eventos ocorrem em direções opostas do mesmo eixo.

O que evidências arqueológicas mais recentes vêm sugerindo, porém, é que o foco ritual mais importante para os próprios construtores pode ter sido o inverno, não o verão. A pista principal veio de Durrington Walls, um grande assentamento a cerca de 3 quilômetros de Stonehenge, onde arqueólogos acreditam que viviam as pessoas responsáveis por erguer o monumento. Ali, foram encontrados mais de 38 mil ossos de animais descartados — a maioria de porcos —, muitos ainda com carne aderida quando foram jogados fora, indicando fartura, não escassez. A análise do desgaste dentário desses porcos mostrou que a maior parte deles tinha cerca de nove meses de idade quando foi abatida; como os leitões nascem tipicamente na primavera, isso significa que os animais estavam sendo sacrificados por volta do solstício de inverno, não do de verão. Some-se a isso o fato de que ossos de bovinos e suínos encontrados no local vieram de longe — sugerindo que comunidades inteiras se deslocavam por grandes distâncias justamente para participar desses banquetes de meio do inverno.

Um arqueólogo que dedicou décadas ao estudo do sítio, Mike Parker Pearson, da University of Sheffield, resumiu a evidência de forma direta: não há indícios de que alguém estivesse presente na paisagem ao redor de Stonehenge durante o verão. Isso não significa que o alinhamento de verão seja irrelevante — apenas que a celebração de maior peso ritual, com base nas evidências disponíveis hoje, provavelmente acontecia no pôr do sol do solstício de inverno, quando o horizonte mais escuro e frio do ano parecia, para aquelas comunidades, prestes a se inverter.

Durrington Walls: onde os construtores viviam e comiam

Vale destacar o próprio Durrington Walls como parte essencial da história de Stonehenge, e não apenas como nota de rodapé. O assentamento, ocupado por volta de 2500 a.C. — justamente o período de ereção dos sarsens —, também tinha suas próprias estruturas de madeira alinhadas ao nascer e ao pôr do sol nos solstícios, ecoando, em escala menor, o mesmo tipo de planejamento astronômico visto em Stonehenge. As marcas de corte encontradas nos ossos de boi mostram que a carne era cuidadosamente fatiada; ossos de pé queimados sugerem que os porcos eram assados inteiros sobre fogueiras abertas; e sinais de cárie nos dentes de alguns animais indicam que eram engordados com algum tipo de alimento açucarado, possivelmente mel. Nada disso sugere consumo cotidiano — tudo aponta para banquetes excepcionais, de grande escala, reunindo pessoas vindas de longe.

Dois mitos comuns sobre Stonehenge

Mito 1: “Stonehenge foi construído pelos druidas.” Os druidas, sacerdotes celtas documentados por fontes da Idade do Ferro europeia, viveram muitos séculos — na verdade, mais de mil e quinhentos anos — depois da construção das principais fases de Stonehenge. A associação entre druidas e o monumento é, na melhor das hipóteses, uma reinterpretação tardia, popularizada sobretudo a partir do século 17 e 18, sem qualquer base arqueológica que ligue os dois grupos.

Mito 2: “Ninguém sabe como as pedras foram movidas, porque isso seria tecnicamente impossível para povos neolíticos.” As evidências de pedreiras identificadas no País de Gales — com marcas de ferramentas, sinais de extração deliberada e cronologia compatível com a construção do monumento — descartam explicações que recorrem a fenômenos fora do alcance humano da época, como geleiras ou tecnologias perdidas. O verdadeiro mistério não é se humanos conseguiram fazer isso, mas exatamente que métodos logísticos — quantas pessoas, que rotas, que técnicas de arrasto ou navegação — tornaram viável mover pedras de várias toneladas por centenas de quilômetros sem rodas de carga nem animais de tração conhecidos na região.

Um monumento que talvez tenha unido a Grã-Bretanha

Um estudo publicado no fim de 2024 por pesquisadores da UCL e da Aberystwyth University, já em resposta à descoberta da origem escocesa da Altar Stone, propôs uma leitura mais ampla do achado: se todas as pedras de Stonehenge vieram de regiões distantes e distintas da Grã-Bretanha — País de Gales, Wiltshire e agora a Escócia —, é possível que o monumento tenha funcionado, entre outras coisas, como um símbolo de unificação entre comunidades agrícolas neolíticas espalhadas por toda a ilha, e não apenas como um projeto local de Wiltshire. A hipótese se apoia em outras evidências de conexões de longa distância no período, como estilos semelhantes de cerâmica e de plantas de casas encontrados em diferentes regiões da Grã-Bretanha da época.

Vale notar que a arqueóloga Susan Greaney, da University of Exeter, que não participou do estudo da Altar Stone, resumiu bem o efeito da descoberta sobre o campo: a distância revelada surpreendeu justamente pesquisadores experientes, o que reforça o quanto ainda falta compreender sobre as redes de contato entre comunidades neolíticas distantes na Grã-Bretanha pré-histórica. Cada nova técnica de datação e de análise geoquímica aplicada às pedras tem revisado suposições que pareciam bem estabelecidas havia décadas — o caso da Altar Stone é apenas o exemplo mais recente de uma origem tida como certa que, na verdade, estava errada.

Reconhecimento e visitação hoje

Stonehenge foi reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1986, dentro de um conjunto que também inclui o sítio próximo de Avebury, outro grande complexo de monumentos neolíticos de Wiltshire. Hoje, o monumento é administrado pela English Heritage, organização responsável pela conservação de sítios históricos na Inglaterra, e recebe centenas de milhares de visitantes por ano — incluindo, todos os anos, grandes aglomerações espontâneas durante o amanhecer do solstício de junho, quando o acesso às próprias pedras é liberado ao público, algo que não acontece no restante do ano por questões de conservação.

Perguntas frequentes

Stonehenge está completo hoje como estava originalmente? Não. Muitas das pedras originais caíram, foram removidas ou nunca chegaram a ser reerguidas depois de fases anteriores de desmonte — estima-se que menos da metade das bluestones que já existiram no local ainda estão de pé hoje. O que se vê hoje é uma combinação de estruturas originais, pedras reerguidas em restaurações do século 20 e espaços vazios onde outras pedras já existiram, alguns deles marcados apenas por buracos no solo, visíveis somente em escavações arqueológicas.

Por que tantas pessoas ainda vão a Stonehenge no solstício de verão, se o inverno pode ter sido mais importante para os construtores originais? A tradição moderna de reunião no solstício de verão é relativamente recente, associada sobretudo a movimentos neopagãos e neodruídicos que ganharam força a partir do século 19 e 20 — não reflete necessariamente a prática ritual dos construtores originais do monumento, que viveram milênios antes desses movimentos existirem.

Existe alguma teoria científica séria envolvendo aliens ou tecnologia perdida na construção de Stonehenge? Não. Entre arqueólogos e geólogos, não há debate sério sobre isso: pedreiras identificadas no País de Gales, com ferramentas e marcas de extração datadas do período correto, mostram que a construção foi obra humana, realizada com organização social, tempo e mão de obra — não com tecnologia externa ou desconhecida. Teorias desse tipo circulam sobretudo fora do meio acadêmico e não têm respaldo nas evidências publicadas em periódicos científicos revisados por pares sobre o tema.

As bluestones e a Altar Stone foram transportadas pela mesma rota? Não necessariamente, e essa é parte do que torna a descoberta de 2024 tão intrigante. As bluestones vêm do País de Gales, uma região relativamente mais próxima e já associada a pedreiras confirmadas por escavação direta. A Altar Stone, vinda da Escócia, percorreu uma distância bem maior, e os pesquisadores responsáveis pelo estudo de 2024 afirmam explicitamente que ainda não sabem se o transporte foi feito por terra, por mar, ou por uma combinação das duas rotas.

Fontes consultadas

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